O Dia em que Conheci o Amor da Minha Vida. Ou: Meu Relato de Parto

 Era segunda-feira. Eu completara 38 semanas no dia anterior. Segundas-feiras sempre foram dia de lista de afazeres, de planejamento, de visualizar a semana que vem por aí. Sabia que o tempo de nenê no forninho estava chegando ao fim. Portanto, me preparei para agendar tudo aquilo que faltava e para fazer tudo aquilo que queria, antes de ter um recém-nascido nos braços.

Pois bem, depois de um dia quente de março, com mais de 10kg a mais na pança, andando com aquela graça de pato que só as grávidas têm, aproveitei para reservar meu hotel em São Paulo - já que estava em São José dos Campos e teria filho na capital. Escolhi, depois de muita pesquisa, um hotel que tinha um Spa maravilhoso, café da manhã no quarto e que, aliás, ficava próximo ao hospital. Liguei pra lá, me certifiquei que aceitavam gestantes de 39 semanas pra fazer massagem relaxante no corpo, nos pés, e tudo mais que eu tinha direito. Perfeito, hotel agendado, spa agendado. Bora aproveitar a semana em São Paulo pra marcar acupuntura, doula, quiropata (sim, meus amigos, a grávida já cheia de dor nas costas e sem posição pra dormir - e com pubalgia - precisava de uma trégua).

Tudo marcado, agendado, esquematizado, como uma boa senhora com ascendente em Virgem gosta. Aproveitei que quase não comi doce na gravidez, com medo de diabetes gestacional, e encomendei um brigadeiro que AMO, pra entregar lá no hotel. Nada como um docinho pra mimar a mãe de 9 meses de gravidez, no verão brasileiro.

Tudo lindo, fui dormir às 21h - quem não ficou grávida não pode me julgar aqui - e acordei, como de costume, para fazer meu primeiro (de 5 ou 6) xixi da noite, às 23h. Voltei pra cama. Até aqui, marido/pai continuava dormindo (pois é, o não-grávido tb dormia cedo), mas toda vez que eu acordava pra fazer xixi - era praxe - ele só acordava pra me perguntar se tava tudo bem e falava pra eu fazer xixi devagar (!!). Como sempre, falei "tudo bem". Quando voltei para a cama, percebi que não tinha feito todo xixi que eu queria, já que eu fiz um segundo xixi NA CAMA. Juro que foi totalmente involuntário e estranho. Mas aí me acendeu uma luzinha..."será que minha bolsa estourou?", pensei. "Não pode ser, tá muito cedo pra ela nascer. A gente só vai pro hotel semana que vem. Filha, colabora com o spa + brigadeiro + café na cama da mamãe, por favor!"

Ela não estava de acordo com meus planos. Era a bolsa mesmo. Dra. Paty confirmou com a foto que mandamos pra ela e orientou - calmamente, preciso enfatizar - que fossemos indo pra São Paulo "com calma", parafraseando-a. Um adendo: aqui, mozi - aka Matheus, papai, meu marido - já estava acordadíssimo e organizando tudo pra gente partir pra SP. A mala já estava no porta-malas há semanas (ascendente em Virgem, lembram?), as roupinhas da Maya lavadas e guardadas, só faltava mesmo uma mochila com o básico pra ir pro hotel ou hospital, se precisasse. Aqui já era quase meia-noite.

Partimos pra Sp e, gostaria de adicionar aqui, eu não sentia nada. Além da bolsa estourada, nada de diferente acontecia com o meu corpo, nenhuma contração ou dor até então. "Se isso é estar em trabalho de parto, então é moleza", pensei eu. HA-HA-HA. Sabia de nada.

No caminho, fui ouvindo música, cantando e reservando um hotel bem pertinho do hospital pelos próximos dois dias, já que ela poderia nascer nas próximas 48h, imaginava eu. Peguei um hotel a 1km do hospital. Mais perto, impossível. Chegamos lá por volta de 1h, 1h30 da manhã. O rapaz da recepção do hotel me deu bom dia (sempre achei isso estranho, mas ok) e perguntou se eu estava bem. Respondi que "só estou em trabalho de parto, mas estou bem sim". Rimos. Não era mentira.

Nisso, Matheus já tinha falado com a doula, com a parteira, com a obstetra e ia me monitorando de perto. Tomei um banho quente quando subimos pro quarto, vesti um pijama e abri uma pringles, morrendo de fome. Por volta das 2h, Matheus entrou no banho e quando ele saiu, lembro que eu já estava na beirada da cama, sentada, com umas cólicas bem chatas. BEM CHATAS.

DISCLAIMER: Nesse momento, amigos, desculpem a cabeça cheia de névoa da mulher que estava em trabalho de parto e é uma atual puérpera; provavelmente, a partir daqui, alguns acontecimentos estarão fora de ordem ou foram completamente inventados pela minha mente na partolândia.

Mozi ligou pra Jeh, nossa parteira maravilhosa, e ela falou que tava tudo certo. Pediu pra eu voltar pro banho quente, deixar a água bater na barriga, relaxar, tomar 2 buscopan que IA-FICAR-TUDO-BEM...tomei os buscopan. Não ficou tudo bem.

Minha dor só aumentava e acho que foi aqui que a Jéssica chegou no hotel, viu que eu tava com 1cm de dilatação e voltou pra casa porque, provavelmente, esse trabalho de parto ainda ia se estender. Mas eu já tava com muita dor. Muita. Dor.

Lembro de o Matheus ter ligado pra obstetra/parteira/doula e dizer "não sei o que fazer, ela parou de me responder. Acho que já está na partolândia!" Não sei se isso foi antes ou depois da Jeh chegar no hotel, não lembro bem a ordem das coisas, como deixei bem claro aqui em cima.

Em algum momento, lá pelas 3 da manhã, a Nat (nossa doula) chegou. Aqui, eu já não queria mais sair do vaso. Estava sentada ali, na posição contrária de quem se senta para fazer xixi - ou cocô - com as costas livres e viradas pra ela, que massageava sem parar pra aliviar minha dor. Mais uma contração. PUTA QUE O PARIU. Eu não sei descrever a dor de uma contração. Mas eu só pensava em aguentar mais um pouco. E mais um pouco. E mais um pouco.

Jurei pra mim que só iria para o hospital quando não aguentasse mais. Tinha um medo gigante de não dilatar na velocidade que os alecrins dourados (vulgo, médicos) da maternidade gostariam e me entubassem uma cesariana desnecessária (mais uma, né, amores? O sistema é cruel). Então ali na privada (não lembro se saí dessa posição, acho que não) fiquei até 6h e pouco, quando já não aguentava mais. Eu precisava ir pro hospital. E eu só chamava o Fábio. Lembrem-se aqui que meu marido se chama Matheus, ok?! Mas eu só queria o Fábio essa hora. 

Fábio era o anestesista.

Desci o elevador. Matheus foi pegar o carro e fiquei no lobby com a Nat - a doula. Mais. Uma. Contração. Puta. Merda. Caralho. De. Asa. Eu BERRAVA (aliás, berrei muitoooo no quarto também, devo ter acordado uma galera ali). O rapazinho da recepção agora acreditava em mim. Mozi levou mais ou menos 3 horas e 15 minutos pra pegar o carro (5 minutos) e mais 4 horas e 17 minutos para chegar no hospital (mais 5 minutos). Ele ia com o maior cuidado do mundo. Ao mesmo tempo que eu queria que ele fosse a 170km/h, queria que ele andasse bem devagarinho pra não passar bruscamente por nenhum buraco, quebra-mola ou qualquer outra coisa que pudesse aumentar minha dor. Mais uma contração no carro. EU NÃO AGUENTO MAIS! Cadê o Fábio?! Alguém já ligou pra ele??

Chegamos no hospital (eu, mozi e Nat) antes da Pat (Obstetra) e Jessica (Parteira/EO). Eu lembro de não autorizar que ninguém me tocasse até minha médica chegar. Aqui eu gostaria de fazer um adendo: grávidas ou tentante, se eu posso lhes dar um conselho, é: ESTUDEM. Estudem muito. Parto não tem replay. Seu corpo precisa ser respeitado.

Paty chegou. Foi como morrer e ir pro paraíso. Vê-la foi reconfortante, apaziguador. Ela me examinou. Lembro perfeitamente de ouvi-la falar "SETE". Pensei: "Sete o que? Não pode ser centímetros de dilatação, tem 3h que comecei a sentir dor. Deve ser outra coisa." Não era outra coisa. Eu tava em estágio bem avançado no meu trabalho de parto e não tinha a mais vaga ideia.

Eu queria fazer um segundo adendo aqui: O Matheus, durante todo esse processo, desde que minha bolsa estourou até nossa filha nascer (até hoje, se me permitem esse spoiler), NÃO SAIU DO MEU LADO - só pra trocar de roupa e entrar na sala de parto, o que levou 4h e meia (alguns minutos). Ele esteve atento, preocupado, presente e vigilante por todo o tempo. E, mesmo na partolândia, eu vi. Eu senti. Eu o amei mais, a partir desse dia.

Voltando, fui levada para a sala de parto, um monte de lençol no chão do banheiro, onde a banheira cheia se encontrava também. Lembro de ter visto a Jeh só aqui. Sonhei ou foi real? Sei lá...Agora estávamos todos juntos: eu, meu marido, minha obstetra, minha enfermeira obstétrica e minha doula. Só tava faltando o Fábio. Eu não esqueci dele. Perguntei de novo: "cadê o Fábio?". Lembro, entre uma contração e outra, entre um entra e um sai da banheira, um agacha e um levanta e senta no banquinho e apoia no marido/na doula/em qualquer coisa, de estar dentro da banheira, sentido as contrações darem uma (ligeira) aliviada e fazer essa pergunta de novo (a do Fábio). E a Jessica, muito calmamente falar algo como "Fe, vou ser sincera com você: o Fábio já tá aí. Mas eu acho que você tá indo muito bem e daqui a pouco ela vai nascer. Se você quiser, ele pode te dar a anestesia, mas acho que não precisa." e eu disse "agora não dá mais tempo, né? Não vale mais a pena". A Jessica ou Pati ou as duas disseram que sempre dava tempo. Mas eu acho que não dava. Então aguentei um pouco mais. E um pouco mais. E um pouco mais.

Saí da banheira, já estava me dando nos nervos. Não tinha mais posição. Tudo doía, tudo era cansativo, exaustivo. Eu não aguentava mais. Eu dizia que ela não queria nascer. Que eu não tinha forças. Que ela nunca ia sair de dentro da minha barriga. Quando eu achava que tinha feito toda força do mundo, ela continuava lá dentro. E muda de posição de novo. E de novo. E de novo. E só o Matheus mesmo pra me segurar e me apoiar - literal e figurativamente - nesse momento.

Numa dada contração de NÃO-AGUENTO-MAIS-ELA-NÃO-QUER-NASCER, eu senti uma ardência. Ardeu muito. E eu falei. E a Pati disse, com a maior calma que lhe é peculiar, "é isso mesmo". E sorriu. 

Ela tava nascendo. 

Eu estava agachada, meio de cócoras e totalmente escorada pelo meu marido, no banheiro da sala de parto, cheia de lençóis a minha volta, quando ela coroou. E eu a vi pelo espelhinho. Seus cabelinhos negros, desgrenhados e cheios de vérnix apareciam para mim. Mais uma contração. Mais uma vontade de fazer força. E ela nasceu. 8h45am do dia 29 de março de 2022. 

A Pati falou para eu segurá-la, mas eu não tinha mais forças. Eu só queria sentar/deitar e abraçar meu bebê. A Pati a pegou. Ela veio direto para os meus braços. Era magra e roxinha. 

Esqueci de dizer que, a essa hora, a pediatra do parto, a maravilhosa Jaque já tinha chegado. Eu lembro de tê-la visto minutos (ou hora) antes e pensar "ela deve estar nascendo para a pediatra já estar por aí. Quem bom, porque eu não aguento mais de dor".

Voltando ao nascimento. Quando a vi, roxinha, olhei pra Jaque e perguntei "tá tudo bem com ela?" e ela me respondeu "perfeita". À essa altura, Matheus já tinha caído no choro e eu, extasiada e estática, só queria ficar com ela em meus braços. Mas tive que entregá-la para pesar e medir, tudo sob vigilância do (agora babão) papai e da pediatra, enquanto eu tomava a injeção de ocitocina. Agora sim, o Fábio dava as graças a sua participação especial no parto.

Ela voltava aos meus braços. Tivemos nossa golden hour. Uma hora coladinha na minha nenê cheia de vérnix, cheia de vida, ainda sem entender nada do que estava acontecendo. Ela mamou nesse tempo, nós rimos, tiramos foto, e eu também tremia muito. Não tinha ideia de que era algo totalmente esperado pela reação hormonal. Em algum momento nesse meio tempo, também "pari" a placenta (gente, depois de parir um filho, ter que parir a placenta é o fim da picada!).

E assim, numa mistura de sentimentos, sensações, dores e lágrimas, mas também muito, muito amor, nascia ela, o amor da minha vida: Maya.


*esse relato de parto foi feito 20 meses após dar à luz. Num rompante de amor e necessidade de botar pra fora - e relembrar - aquele 29 de março de 2022, escrevo de cór (literalmente, que quer dizer "de coração") o que me lembro e como me lembro daquele momento. Daquelas segunda e terça feiras que mudaram minha vida para todo o sempre.















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