Eu vivi um relacionamento abusivo


Aviso: gatilhos emocionais no texto.

Quando eu tinha 17 anos namorei um cara de 27. Ele era lindo, bem sucedido, inteligente. E ele era amigo do meu pai. Quando ficamos a primeira vez, ele disse que pediria permissão ao meu pai e que prometeria cuidar de mim como nenhum "cara desconhecido" cuidaria.

Ele não me bateu. Ele não me forçou transar. Ele não me ameaçou fisicamente. Mas ele me torturava mental e psicologicamente.

Durante anos, vivi sem contar pra ninguém que o meu primeiro namoro, o cara com quem perdi minha virgindade e me imaginei casando, era meu abusador. Uma vez, quase 10 anos depois que o namoro tinha terminado, contei pra alguém que tinha tido um relacionamento abusivo e a primeira reação dela foi perguntar o porquê: "O que ele fez? Tem certeza que foi abuso? Será que você não tá exagerando?", perguntaram...

E, apesar de eu ter achado (e ainda achar) essas perguntas muito cruéis (não diminua a dor de uma mulher, não exija validação dela, não faça ela se questionar se está louca), vou explicar aqui - ou tentar - um pouco do que eu passei ao lado desse cara.

Na primeira vez que falei "eu te amo" pra ele, a resposta dele foi: por que? Eu fiz cara de quem não tinha entendido nada, e ele: me explica, como vc sabe? Como vc sabe que é amor?
Foi a primeira vez que precisei da validação de alguém pra falar sobre amor. E eu amava esse homem. De verdade.

Quando perdi a virgindade com ele, ele me escreveu uma carta. Uma carta de "amor". Uma carta questionando o porquê tinha transado tão rápido com ele, se eu era virgem. Eu amava esse homem.

Um dia fomos ao cinema. Ele me buscou em casa. Assim que eu desci, ele perguntou se eu sairia com aquela roupa. Fiz que sim com a cabeça, quase pedindo permissão, e fomos. Depois de andar uns 15 minutos no shopping, meu namorado me parou no meio do 4° piso e falou "chega. A gente vai embora." Novamente, aquele olhar de quem não está entendendo nada. "Eu não aguento mais os homens olhando pro seu peito. Eu nunca mais vou sair com você vestida assim". Fomos embora antes do filme começar. Eu amava esse homem.

Um dia, estávamos almoçando em um restaurante e um homem mais velho se aproximou, super educado, e falou pro meu namorado: "parabéns, sua namorada é uma mulher linda". Ele agradeceu e, assim que o homem se virou, me disse "com certeza é viado e veio só pra falar comigo". Nessa hora, ele me botou no meu lugar: o da desvalorização, do desmerecimento e aquilo virou uma história sobre ele. Eu amava esse homem.

Na minha formatura da escola, fizemos uma festa maravilhosa, com pessoas com quem tínhamos estudado a vida inteira e feito amizade tambem de uma vida. Eu o convidei, mas ele me explicou que não tinha a menor paciência "pra esses adolescentes de 17 anos". Eu era uma adolescente de 17 anos. No dia seguinte, liguei pra ele toda animada pra contar o quão gostoso tinha sido aquele momento, de todos felizes, se abraçando. Ele me interrompeu, perguntando se eu havia abraçado algum homem. Disse que sim. Ele terminou comigo por telefone. Eu amava esse homem.

E, por último, mas não menos importante, esse mesmo homem, 1 ano e 9 meses depois, virou meu ex. ELE terminou comigo. Quando me contou, meu mundo caiu. E ele me disse que meu olhar de tristeza foi uma das coisas mais bonitas que ele tinha visto na vida. Eu amava esse homem.

Mas a história não termina aí...

Depois de terminar comigo, ele aparecia na minha casa, bêbado, de madrugada, quase toda semana, dizendo que me amava e que eu era a mulher da vida dele. Não sem antes me contar que ele tinha ficado com outras na balada que acabara de sair. Eu sempre deixava ele subir. Dormíamos juntos e, no dia seguinte, ele sumia. Eu amava esse homem.

Mas eu não amava essa relação e, principalmente, eu não amava quem eu tinha me tornado.

Eu precisei de muita terapia pra deixar esse homem ir embora.
E eu conto essa história hoje, quase 17 anos depois, porque eu levei muito tempo para aceitar que eu vivia um relacionamento abusivo e porque não tinha coragem de compartilhar o que vivi. Além disso, hoje conto essa história sem chorar, hoje em dia ela está num lugar melhor e gostaria de poder ajudar outras mulheres que passam por algo parecido, menos ou mais intenso do que passei, mas que possam levar menos tempo que eu para perceber que isso não é amor.

Isso é posse, é insegurança, é crueldade, egoísmo. Mas isso, definitivamente, não é amor.


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